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Veadeiros Criativa: projeto reúne poder público, lideranças e comunidade da Chapada dos Veadeiros para construção coletiva.

Em parceria com a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e Consultoria de Decio Coutinho, a REC Brasil realizou dois dias de atividades gratuitas que uniram apresentação de projeto Veadeiros Criativa, escuta ativa e formação prática em elaboração de projetos culturais na Chapada dos Veadeiros.

As atividades foram realizadas dentro dos Encontros Transformadores, na programação dos 29 anos da Casa de Cultura.

A Rede de Economia Criativa Brasil marcou presença na programação dos 29 anos da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, na Vila de São Jorge, Chapada dos Veadeiros, com dois dias de atividades gratuitas e abertas ao público: a Roda de Prosa, no dia 09 de setembro, e a oficina “Do Sonho para o Papel — Elaborando Projetos”, no dia 10. Celebrar quase três décadas de resistência cultural no Cerrado é também fortalecer a economia criativa, a cultura viva e os saberes que tecem futuros possíveis — e foi esse o espírito que guiou os dois encontros, realizados dentro de uma série de encontros e uma extensa programação.

Roda de Prosa: Uma escuta ativa

A tarde de 09 de setembro começou com música — e não por acaso. Djane Borba abriu a Roda de Prosa com uma performance ao vivo de “Babel”, canção composta ao lado do mestre de cultura popular Benedito Luis Amauro, em um festival na Itália chamado Axé Brasil. Djane afirma que o texto, como em algumas tradições indígenas se diz, foi “recebido”: fala dos muitos mundos que existem dentro de um mesmo mundo, das muitas línguas dos povos que os habitam, e de como, mesmo repetindo as mesmas perguntas geração após geração, seguimos sem nos entender de fato.

A versão da música passou a incluir um provérbio africano para a gravação do TEDx Guararema— “cada um vê o pôr do sol da sua janela” — para reforçar o original que uma história contada em uma língua diferente, se torna uma verdade diferente, pertencente a quem a conta. No final Djane convidou a plateia a cantar junto o refrão, um “ah-ah-ah” que ecoou pela Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge — e a plateia respondeu, entoando com ela.

Não podia haver abertura mais precisa para o que a Roda de Prosa se propunha a fazer: reunir mundos diferentes, dentro do mesmo território, para tentar se entender e iniciar a escuta ativa do projeto, ouvindo de fato. Porque para construir essas pontes, a REC Brasil sabe que precisa, antes de tudo, ouvir — não chegar com respostas prontas, mas com a disposição real de aprender com quem já vive e constrói o território.

Na sequência, Rose Meusburger iniciou a apresentação da Rede de Economia Criativa Brasil e Djane seguiu com a Apresentação do projeto “Veadeiros Criativa” — que contou com um momento especial: a participação ao vivo, por videoconferência, de Decio Coutinho.

A Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge acolheu de pronto a sugestão (e a insistência) da REC Brasil para que Decio entrasse ao vivo no telão, montando toda a estrutura de projeção e áudio para que a sala inteira pudesse acompanhar e ouvir com qualidade. Djane operou a chamada e fez a interlocução entre Decio e os presentes, garantindo que a conversa fluísse como se ele estivesse ali na roda.

Na fala, Decio apresentou a metodologia Giros Criativos, traçando um paralelo com os tradicionais Giros de Folia de Goiás — cortejos que percorrem territórios reunindo comunidades ao seu redor. A ideia central: muitos projetos culturais e criativos não prosperam não por falta de conteúdo ou de vontade, mas por problemas de comunicação — a dificuldade de fazer a informação circular e de conectar quem produz a quem pode apoiar. Decio compartilhou casos em que essa metodologia já foi aplicada com sucesso, em cidades como Bonito (MS) e Franca (SP), reforçando que comunicação bem-feita é parte estrutural — não acessória — de qualquer projeto que queira prosperar.

A proposta do Veadeiros Criativa foi acolhida pelo público sem críticas, mas com muitas contribuições — um sinal forte de que essa postura de escuta está no caminho certo.

Passaram pela Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge lideranças e moradores vindos de Alto Paraíso, Cavalcante (região Kalunga), São João d’Aliança, além de representantes de Brasília e Goiânia (UFG) — reforçando o caráter regional do Veadeiros Criativa.

Um momento institucional importante marcou o encontro: a presença da Caixa Econômica Federal, representada pela superintendente de desenvolvimento regional, Rosa Helena, que apresentou ao público as linhas de microcrédito rural disponíveis via Pronaf B — uma conexão direta entre a escuta do território e a viabilização prática de projetos.

O que a Chapada disse

Depois da apresentação, a dinâmica seguiu para o coração da tarde: a consulta pública, ou escuta ativa. Após uma rodada de apresentação pessoal, os presentes se dividiram em três grupos temáticos — Turismo Criativo (com Governança), Saberes e Fazeres da Terra e Corporiedades — que debateram entre si e escolheram um representante para apresentar suas conclusões à roda. A participação foi intensa, e as falas dos presentes se somaram de forma orgânica e produtiva ao debate.

Do eixo Turismo Criativo e Governança, ficou clara a preocupação com um turismo que não descaracterize o território: a comunidade pediu politicas públicas de ordenamento turístico, atenção à mobilidade urbana, ao excesso de resíduos sólidos e à poluição sonora e luminosa, e rejeitou modelos como grandes resorts e eventos “vindos de fora” sem reconhecimento dos fazedores de cultura locais.

Em contrapartida, o grupo defendeu eventos com utensílios sustentáveis, saneamento adequado, turismo seguro e ético, e uma comunicação ampliada e descentralizada — com protagonismo territorial e vozes locais, nos moldes do que já acontece com a Kalunga Comunicações.

Do eixo de Corporiedades, a mensagem foi de integração regional e descentralização: um calendário cultural unificado, centros culturais acessíveis aos produtores locais, equipamentos e espaços adequados (salas de oficina, cinema, auditórios) e programas de capacitação artística — tudo isso em contraposição à segregação, a eventos sem envolvimento local e a decisões tomadas sem consulta pública.

Do eixo Saberes e Fazeres da Terra, a comunidade pediu valorização dos conhecimentos tradicionais do território — gerando renda e respeitando os saberes ancestrais —, reconhecimento da singularidade da flora e fauna da Chapada e dos Vãos, e o fomento ao protagonismo feminino em todas as fases do projeto, com garantia de direitos e rede de apoio a mulheres e mães. Do lado do que não se quer: invisibilidade dos povos do território, exploração de recursos e saberes locais, e a presença de atravessadores de produtos como artesanato e frutos do Cerrado.

Cada palavra dita naquela tarde foi recolhida com cuidado: a REC Brasil registrou por escrito os textos produzidos pelos grupos e gravou as falas dos presentes. Antes de encerrar, também disponibilizou um formulário para que as lideranças ali reunidas pudessem indicar outras lideranças de seus territórios — para que essa escuta não se encerrasse naquela tarde, mas continuasse se espalhando. Do encontro também saíram pedidos concretos: comunidades de outras cidades da região já convidaram a REC Brasil para levar a mesma conversa até elas.

Esse tipo de resposta é o que dá lastro real a um projeto antes mesmo de ele nascer — e é também compromisso da REC Brasil ser transparente sobre onde está: durante a Roda de Prosa, ficou claro para todos os presentes que o Veadeiros Criativa segue em fase de captação de recursos, e que essa escuta ativa é parte do que sustenta a busca por apoio e patrocínio daqui para frente.

Do sonho para o papel

No dia seguinte, 10 de setembro, Rose Meusburger e Djane Borba conduziram a oficina “Do Sonho para o Papel — Elaborando Projetos”, levando dez participantes a transformar ideias em projetos estruturados. O conteúdo passou pelo que é economia criativa, pela importância do planejamento na elaboração de projetos sociais e culturais, pela construção de orçamentos e planilhas de custos e por onde buscar recursos — editais, leis de incentivo, apoios e parcerias — até chegar à prestação de contas, etapa decisiva para quem quer captar de novo no futuro.

A previsão era de três horas de oficina, mas o grupo — diverso e engajado — fez a atividade se estender até as 13h para dar conta de toda a demanda. Entre os presentes estava a vereadora de São Jorge, Teia, que acompanhou parte da programação, e novamente a Caixa Econômica Federal, reforçando a conexão entre formação e acesso a crédito. Os projetos que nasceram ali surpreenderam pela qualidade: ao final, a própria turma pediu a criação de um grupo de WhatsApp para continuar trocando — enviando seus projetos para retorno da equipe e recebendo os materiais de apoio em PDF.

Aldeia Multiétnica: turismo sustentável em prática

Durante a estadia na região, a equipe da REC Brasil também viveu de perto um exemplo concreto do que significa economia criativa aplicada ao turismo sustentável: a Aldeia Multiétnica.

O espaço é um complexo cultural dedicado à valorização e ao fortalecimento da cultura indígena, reunindo representações de oito etnias — Krahô, Kayapó, Fulniô, Kariri-Xocó, Xavante, os povos do Alto Xingu e Guarani — cada uma com sua própria casa e exposição permanente aberta à visitação. A proposta vai além do turismo contemplativo: é também um espaço de educação antirracista e decolonial.

Na visita guiada, conduzida pelo educador Caio Martins, dados como estes ficam marcados: o Brasil tem 391 povos indígenas falando 295 línguas — e a região de Santarém, sozinha, já reuniu mais de 10 milhões de pessoas antes da colonização. Ao longo do ano, a Aldeia recebe vivências com os próprios povos indígenas — encontros de astronomia, yoga, aulas de língua originária, oficinas de artesanato e culinária tradicional — além de shows de peso (já passaram por lá nomes como Criolo e Lenine) e hospedagem com vista para o Cerrado. Em julho, o Festival da Aldeia reúne todas as etnias representadas em um só encontro.

No feriado em que a equipe da REC Brasil esteve na região, quem recebeu os visitantes foram Daniel Rêj Krahô e Eva Kruwakwyj Krahô, da Aldeia Manoel Alves (Terra Indígena Krahô, TO) — além de Caio (educador), Núbia (cozinha), Anderson e Rubi (equipe de apoio) e Felipe (recepção). Acompanhando as indicações da presidente, amigos dela vindos de Guararema (SP) também visitaram a Aldeia e participaram das atividades da programação do feriado — um sinal de como essa vivência ultrapassa fronteiras e contagia quem chega de fora.

Como visitar a Aldeia Multiétnica

A Aldeia funciona em Alto Paraíso de Goiás e recebe visitantes ao longo de todo o ano, com entrada geralmente disponível das 8h às 14h e saída até às 18h. Os ingressos e a programação atualizada podem ser consultados diretamente no site oficial, aldeiamultietnica.com.br.

Algumas dicas de quem já viveu a experiência: chegue cedo para ter tempo de aproveitar bem os passeios e trilhas antes do calor do meio-dia, e, se quiser almoçar por lá depois das caminhadas, vale encomendar a comida com antecedência — recomendamos especialmente a panelinha de moqueca de banana da terra.

É esse tipo de experiência — um território que soube transformar identidade cultural em economia viva, sustentável e replicável — que também inspira o horizonte do Veadeiros Criativa.

Alto Paraíso: feira, fotografia e memória do território

A passagem pela região também levou a equipe da REC Brasil a Alto Paraíso de Goiás, onde conhecemos a Feira do Produtor Rural — um mergulho direto na economia que já pulsa no território, com produtores locais vendendo o que plantam, colhem e produzem com as próprias mãos.

Foi ali também que nos aproximamos ainda mais da cultura da região através do trabalho do fotógrafo André Dib, autor dos livros SerTão Kalunga e Chapada dos Veadeiros. Em SerTão Kalunga, Dib documenta o cotidiano do povo Kalunga — o maior quilombo em extensão territorial do país, escondido nos vãos da Chapada por mais de dois séculos. Em Chapada dos Veadeiros, o olhar se volta à paisagem e à biodiversidade do Cerrado, fruto de três anos de trabalho de campo pelo parque nacional e seu entorno. Duas obras que, cada uma à sua maneira, registram com profundidade aquilo que a REC Brasil também busca valorizar: a força de um território contado por quem o conhece de dentro.

Próximos passos

A resposta do território confirmou o que a REC Brasil já apostava: economia criativa se constrói com quem vive o território, sustentada por parcerias estratégicas — caminho essencial para cumprir a Agenda 2030 e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O Veadeiros Criativa dialoga diretamente com o ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação), o ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico) e o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), ao unir poder público, iniciativa privada, sociedade civil e comunidade em torno de um mesmo horizonte de desenvolvimento territorial. A escuta da Roda de Prosa agora vira direção para os próximos passos do Veadeiros Criativa. Quem quiser acompanhar ou participar das próximas etapas pode seguir a REC Brasil em suas redes sociais.

A REC Brasil encerra essa passagem pela Chapada dos Veadeiros com um agradecimento especial a todos, todas e todes que tornaram esses dias possíveis. À Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, nosso reconhecimento por quase três décadas de compromisso ininterrupto com a cultura — um trabalho que vai muito além da programação pontual dos Encontros Transformadores: é também guardião de patrimônio cultural imaterial, espaço de encontro entre gerações e testemunha viva da diversidade cultural que faz da Chapada dos Veadeiros um território único. É desse tipo de dedicação que se constrói cultura que dura. Estamos Conectados.

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