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Uma cidade mais justa é uma cidade mais criativa: Ermínia Maricato recebe o título de Cidadã Paulistana

No dia 17 de junho de 2026, a Câmara Municipal de São Paulo entregou à arquiteta, urbanista e professora emérita da USP, Ermínia Maricato, o título de Cidadã Paulistana. A cerimônia, realizada em Sessão Solene no Plenário da Câmara, reuniu familiares, ex-alunos, pesquisadores, movimentos sociais e representantes de organizações da sociedade civil que atuam pela construção de cidades mais justas.

A Rede de Economia Criativa Brasil esteve presente na solenidade, representada pela sua presidente, Djane Borba. Também acompanhou a cerimônia Sônia Maricato, prima da homenageada, que representou o Comitê Popular Guararema. A presença das duas organizações lado a lado é simbólica: mostra como pautas que, à primeira vista, parecem distantes — a reforma urbana e a economia criativa — na verdade caminham juntas quando o assunto é construir cidades mais humanas, participativas e com oportunidades para todos.

Quem é Ermínia Maricato

Nascida em Santa Ernestina, no interior de São Paulo, Ermínia Terezinha Menon Maricato chegou à capital paulista ainda criança e cresceu no bairro do Brás, onde estudou em escola pública. Formada pela FAU-USP no início da década de 1970, ela iniciou os estudos sobre a construção de moradias nas periferias e a expansão desses territórios. Em 1974, ingressou como auxiliar de ensino na USP e, em 2024, recebeu o título de professora emérita, a maior honraria da instituição para sua carreira docente.

Sua trajetória é marcada pela conexão entre a universidade e as lutas populares por moradia e cidade. Em 1987, participou da elaboração da emenda popular pela reforma urbana apresentada à Assembleia Nacional Constituinte, proposta assinada por mais de 135 mil cidadãos e que se tornou um dos maiores símbolos de participação social na Constituição de 1988. Dois anos depois, a convite da então prefeita Luiza Erundina, assumiu a Secretaria Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano de São Paulo. Mais tarde, ajudou a criar o primeiro Ministério das Cidades do Brasil, onde atuou como secretária-executiva. Hoje, segue ativa à frente de articulações nacionais em defesa da reforma urbana popular, presente em diversos estados do país.

Fundadora do LabHab, laboratório de habitação da FAU-USP, Ermínia formou gerações de arquitetos e urbanistas comprometidos com as questões sociais e urbanas, um legado que hoje se reflete em profissionais espalhados por todo o Brasil que carregam essa mesma preocupação com a justiça urbana.

Como foi a Sessão Solene

Como foi a Sessão Solene

A honraria foi oficializada pelo Decreto Legislativo 29/2025, de autoria do vereador Nabil Bonduki, que foi aluno de Ermínia na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. A condução da cerimônia ficou a cargo de Renata, atriz da Companhia Antropofágica, moradora da Comuna da Terra e coordenadora estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em São Paulo, que convidou para compor a mesa o ex-ministro das Cidades Olívio Dutra (que ocupou o cargo entre 2003 e 2005); a professora titular da FAU-USP Maria Lucia Refinetti Martins, coordenadora do INCT Produção da Casa e da Cidade; a arquiteta e urbanista Viviane Almeida, pesquisadora e integrante da BR Cidades; o advogado e pesquisador Benedito Roberto Barbosa, militante histórico dos direitos humanos e dos movimentos de moradia; e o vereador Nabil Bonduki.

O momento de maior emoção do início da solenidade foi a entrada de Nabil Bonduki e Ermínia Maricato no plenário, ao som da bateria da FAU-USP, seguida pela execução do Hino Nacional.

As falas da mesa trouxeram diferentes olhares sobre a trajetória da homenageada. Benedito Roberto Barbosa destacou o compromisso de Ermínia com os mais oprimidos e seu combate ao que chamou de “analfabetismo urbanístico”, apontando Nabil Bonduki como um discípulo dela e valorizando a presença de estudantes da FAU na plateia. Viviane Almeida, falando em nome da BR Cidades, fez uma fala em formato de poema, tecendo histórias coletivas de mulheres militantes de diferentes cidades do país que encontraram em Ermínia uma referência de luta, e encerrou celebrando a homenageada. Maria Lúcia Refinetti Martins fez um discurso emocionado sobre a chegada de Ermínia à universidade ainda jovem para estudar habitação popular, destacando como a trajetória da professora fortalece o papel da universidade como produtora de conhecimento a partir da realidade social e da extensão universitária, encerrando com a mensagem de que solidariedade e alegria são revolucionárias.

Olívio Dutra relembrou o período de construção do Ministério das Cidades e do Estatuto da Cidade, tratando-os como conquistas importantes que, no entanto, ainda precisam se tornar realidade concreta no dia a dia das pessoas. Ele defendeu que o orçamento público deveria envolver diretamente os diferentes grupos sociais espalhados pelo território e destacou a importância de se pensar as regiões metropolitanas — área de especialização de Ermínia — de forma integrada, passando pela educação, pela ciência e pela tecnologia a serviço da sociedade. Em seguida, foi chamado à mesa o ex-senador Eduardo Suplicy, que fez uma defesa da renda básica e citou dados sobre violência contra as mulheres, encerrando sua fala com uma saudação afetuosa à homenageada.

Por fim, o vereador Nabil Bonduki relembrou o impacto de Ermínia em sua formação acadêmica e citou outras personalidades homenageadas pela Câmara ao longo do tempo, como Oscar Niemeyer, José Celso Martinez Corrêa e Chico de Oliveira, situando a homenagem a Ermínia como parte de um projeto de cidade e de país que olha tanto para o passado quanto para o futuro.

Encerrando a cerimônia, Ermínia Maricato fez um breve retrospecto da evolução urbana de São Paulo ao longo de sua trajetória, resumindo o diagnóstico do país em uma frase simples: não faltam leis, não faltam planos. Ela destacou a qualidade dos projetos desenvolvidos durante a gestão da prefeita Luiza Erundina e relacionou o tema da atual Campanha da Fraternidade à ideia de que a saúde pública passa também pela moradia. Dirigindo-se especialmente aos jovens presentes, apontou caminhos para o futuro: retirar o véu que encobre a realidade urbana, combater o que chamou de analfabetismo sobre a cidade, resolver o acesso à terra, aplicar de fato a função social da propriedade, ampliar a compreensão pública sobre a crise climática, reconstruir uma democracia mais próxima das pessoas e retomar a proposta do orçamento participativo. A fala foi encerrada em meio a aplausos e visível emoção da plateia.

Por que isso importa para a economia criativa

Pode parecer, à primeira vista, que uma homenagem do campo do urbanismo pouco tem a ver com o dia a dia de quem trabalha com economia criativa. Mas a trajetória de Ermínia Maricato mostra exatamente o contrário: cidade justa e economia criativa são a mesma luta, vista por ângulos diferentes.

A economia criativa depende, antes de tudo, de território. Ela nasce nas ruas, nas periferias, nos bairros populares, nos espaços de convivência das cidades. Quando o urbanismo garante moradia digna, mobilidade, saneamento e espaços públicos de qualidade, ele está, na prática, criando as condições para que a cultura, o artesanato, a música, o audiovisual, a gastronomia e tantas outras cadeias criativas possam florescer. Não existe economia criativa forte em uma cidade desigual, onde bairros inteiros ficam à margem do acesso a infraestrutura, cultura e renda.

É por isso que a presença da Rede de Economia Criativa Brasil nessa cerimônia faz todo o sentido. Reconhecer publicamente uma trajetória de mais de cinco décadas dedicada à reforma urbana é também reconhecer que o desenvolvimento econômico sustentável das cidades — incluindo a economia criativa — só se sustenta quando caminha junto com justiça social e direito à cidade para todos.

Um compromisso que se renova

A entrega do título de Cidadã Paulistana a Ermínia Maricato é, antes de tudo, um reconhecimento a uma vida de trabalho coletivo. É também um convite para que diferentes setores da sociedade — do urbanismo à economia criativa, passando pelos movimentos populares — continuem construindo pontes entre suas agendas.

Para a Rede de Economia Criativa Brasil, participar desse momento reforça um compromisso que já orienta os projetos da rede: o de que cidades mais justas geram mais oportunidades para a criatividade, o empreendedorismo cultural e a geração de renda em suas comunidades. Fortalecer esse diálogo entre reforma urbana e economia criativa é um caminho que a rede pretende seguir aprofundando, em parceria com organizações, pesquisadores e representantes do poder público que compartilhem esse compromisso com uma cidade mais justa para todas e todos.

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